a era dos gurus acabou
Atualizado: 4 de ago.
você deve ter percebido: nos últimos anos, centenas de documentários relatando movimentos espirituais que se transformaram em seita, práticas criminosas, abusos (psicológicos e físicos), distorções da realidade, lavagem de dinheiro etc. vieram à tona.
alguns ex-membros confirmavam as histórias, outros ainda membros ainda se recusavam a ver os fatos. o mais interessante (ou triste?) é que não importava muito a vertente espiritual. de médiuns, pastores, professores de yoga a gurus da nova era, parecia que nenhuma vertente estava a salvo dos predadores.
por muito tempo nós gostamos de dar nome a esse tipo de gente. são monstros. monstros odiosos que utilizaram belas mensagens para se promover. mas quando comecei a ver a quantidade de pessoas que cometem tais atos comecei a me questionar. são mesmo monstros? ou são apenas pessoas que, ao serem colocadas em tais pedestais, acabaram se esquecendo da própria humanidade?
se existem pessoas que já nascem com inerente maldade? o psicólogo James Hillman fala extensamente sobre isso em seu livro O Código da Alma. em sua teoria da semente do carvalho, ele se pergunta se algumas sementes já nascem podres.
em sua teoria, pessoas nascem com um “daimon”, uma espécie de inteligência interior, uma presença psíquica inata que acompanha cada pessoa desde o nascimento e carrega a semente do carvalho (a imagem única daquilo que ela veio realizar na vida).
ele se inspira no Mito de Er, de Platão, no final da República. nesse mito, antes de nascer, cada alma escolhe um modo de vida e um daimon é designado para ajudá-la a lembrar e cumprir essa escolha.
“O daimon lembra você do seu destino. É o portador da sua imagem.”
ele ainda defende que a força do daimon é moralmente neutra, o problema é como ela encontra forma na vida concreta.
dado que seu maior mestre é Jung, Hillman considera que a psique humana contém uma dimensão sombria e que não podemos esquecer desse fato. e eu concordo com ele. antes de chamar líderes hediondos de monstro, nos separando deles, prefiro ter a humildade de entender que a semente podre dele também pode existir em mim ou em você.
eu não posso falar por todos, mas acredito que muitos dos líderes espirituais que caíram, no início, possuíam boas intenções. talvez eles tivessem de fato um daimon que os guiava para serem líderes, para se conectar espiritualmente e trazer essa centelha espiritual da matéria. não tenho dúvidas que muitos realmente ajudaram pessoas — a porta de entrada para entender quem eu sou e ter um acesso espiritual muito profundo foi em uma prática do Osho, então quem sou eu para dizer que ele não criou coisas interessantes?

sinto que a essência dessa questão é entender que até “boas pessoas”, com “boas intenções”, podem se perder no caminho. até pessoas que tiveram sim contatos espirituais profundos, podem se perder na própria narrativa. a ilusão está disponível para todos. e a ilusão pode parecer mais verdadeira que a verdade porque ela infla nossos egos. e eis nosso calcanhar de Aquiles. é o ego que coloca a venda na humildade. é o ego que nos faz perecer em nossos próprios sofrimentos.
quando o ego entra em cena e passamos a fazer escolhas baseadas nele, costumamos nos perder na ilusão. veja bem, uma pessoa que decidiu se encontrar na espiritualidade costuma ser uma pessoa que nunca se encaixou ou que sentia que faltava algo na vida, certa espécie de magia. é uma pessoa que estava buscando. de fato, ela pode ter encontrado algo. algo que a ajudou a melhorar seus sofrimentos psíquicos, a entender melhor a si mesma, a relembrar de certas nutrientes essenciais para a alma. elas podem até mesmo ter tido um contato mais profundo com Deus, com o Espírito. não há dúvidas que o daimon delas as chamou para algo vinculado ao mundo espiritual na matéria.
e então, depois de receber esse chamado, ela foi em direção a ele. mas ela não sabia o que era ter pessoas a seguindo. talvez tudo que esses gurus queriam eram se sentir vistos, mas o que difere o remédio do veneno é a dose, e ao serem tão vistos, eles gostaram. gostaram da sensação de poder que tinham perante aquelas pessoas. gostaram de se sentir especiais. gostaram também do poder do dinheiro. e é aí que entra a dimensão sombria da psique.
em certo ponto, eles esquecem que ainda são humanos e passam a acreditar na narrativa da própria iluminação. qualquer ato que tenham a partir daqui passa a ser um chamado de Deus, algo que Ele falou para fazerem. os gurus não se questionam. eles não se perguntam se o que está fazendo é correto porque eles dissolveram essa parte consciente de si mesmos por acreditarem que já são completamente consciência. eles esquecem que possuem a parte sombria da psique e acabam agindo como deuses na Terra.
dito isso, muitos astrólogos interpretam os últimos anos como um período de exposição, revelação e colapso de estruturas. isso poderia explicar porque tantos escândalos vieram à tona.
em algumas perspectivas astrológicas, diz-se que grandes movimentos envolvendo Plutão costumam corresponder simbolicamente a épocas em que conteúdos reprimidos (individuais e coletivos) emergem para serem confrontados.
acredito que estamos sempre conectadas aos céus e também acredito que uma vez que verdades começam a vir à tona (e como fora é como está dentro), é um convite para olharmos nossas estruturas internas. porque um guru não existe se não tiver pessoas seguindo ele. uma seita não acontece se pessoas não estiverem lá dentro.
a grande chave aqui é a pergunta: o que é em nós ainda busca um guru? o que em nós ainda busca alguém para nos dar uma resposta para a existência? o que em nós ainda busca fora algo que só encontrará dentro?
com todos esses movimentos da sujeira vindo à tona, precisamos olhar onde está a sujeira em nós também. se queremos falar de certa Unidade, que “somos todos UM”, de que não há separação, precisaremos olhar para nós como parte desse todo. não tem como achar que não estamos separados, mas nos separarmos quando a coisa for feia.
percebo que esse é um momento da queda dos gurus, mas também um momento para que nós comecemos a nos questionar para quem nós entregamos o nosso poder. é só ao começarmos a nos questionar que poderemos resgatar a nossa maestria. e essa maestria também diz respeito ao nosso caminho espiritual.
isso não quer dizer que não poderemos buscar auxilio para ir mais fundo. poderemos. lembra, não estamos separados. mas uma coisa é buscar auxilio para VOCÊ trabalhar suas questões, VOCÊ expandir, VOCÊ liberar, outra coisa completamente diferente é buscar auxilio para alguém trabalhar suas questões para você, alguém que prometa te expandir, alguém que prometa te curar. quando você vai no médico ele te examina e passa o remédio, mas quem tem que ir atrás, tomar o remédio e criar uma rotina mais saudável é você. e muitas vezes você busca uma segunda opinião.
para sairmos na ilusão, precisaremos tomar as rédeas e isso quer dizer que precisaremos nos responsabilizar por nossa própria trajetória. foi-se o tempo de depositar no outro a promessa da nossa iluminação. somos todos humanos, em uma caminhada intensa e profunda de integrar luz e sombra para despertar o melhor em nós. eu confio na humanidade. e você?

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